Carlos Alberto dos Santos Dutra


Pequena História de Brasilândia

Parte 1

Quando começa a história de Brasilândia, afinal?

 

 

Meus pais chegaram nesta região no ano de mil novecentos e....”. A história de uma região, na maioria das vezes, começa assim, sendo contada a partir dos lábios de seus primeiros moradores e suas narrativas cheias de fatos pitorescos guardados nas dobras da memória. Numa progressão paciente e cronológica, contam os antigos, com sabor e saudosismo, a história da chegada daqueles que são tidos como os fundadores do lugar. Primeiro, deram início aos povoados, depois, aos vilarejos e por fim, fundaram as cidades e suas expressivas comarcas.

 

Em que pese o romantismo e o efeito épico que essa re-construção do tempo e do espaço possa assumir e imprimir ao ouvinte e leitor, a história de um município, entretanto, nasce diferente da história dos povoados, embora quase sempre tenha nele a sua origem. Isso porque a história de um município dispõe de propósitos diferentes daqueles dos grandes feitos das grandes famílias. Por se tratar de uma circunscrição administrativa autônoma do Estado, de configuração social e política, o município tem sua história, na maioria das vezes, contada e construída por aqueles que nesse espaço exerceram algum tipo de autoridade, sendo escrita conforme as ordens legais e o costume local desses mandatários.

 

Registro que se convencionou chamar de “história oficial” ou “história dominante”, a história do município brota sempre de uma “leitura” dos fatos e dos acontecimentos administrativos que ocorrem durante o trajeto da “formação” das bases políticas dessas comunas. Tais registros, bem como a sua interpretação e perenização no tempo, se dão, por conseguinte, a partir de pessoas pertencentes ao escalão e instâncias de poder que vão se legitimando no tempo através de seus atos.

 

Ao contrário da história das origens primeiras e dos antepassados de uma determinada região –que contempla a história de povos autóctones e dos primeiros núcleos civilizatórios, por exemplo--, a história de um município tem configuração política. História que está preocupada não com velhos “troncos”, “clãs” e “cepas” de famílias tradicionais que desbravaram uma região, mas com o curso desses feitos, no tempo da história, inscritos por autoridades, e da organização deste poder como entidade politicamente organizada e representativa, suas ascensões e quedas, avanços e recuos.

 

Antes da chegada dos primeiros colonizadores a região que mais tarde passou a pertencer ao município de Brasilândia, no Estado de Mato Grosso do Sul, a historiografia, ou seja, a escrita da história, deixou de preencher uma enorme lacuna na descrição e narrativa dos acontecimentos que aqui deram causa para o surgimento dessa cidade. É como se os antigos habitantes que aqui viveram, antes da chegada dos primeiros exploradores, não existissem. Esse parece ter sido o problema enfrentado pelos historiadores ao escrever a história dessa e de outras regiões colonizadas no Oeste brasileiro: contam sempre a história a partir da “chegada” do chamado homem branco nas regiões em que ele se instala.

 

Na história da região de Brasilândia, essa “ausência” do elemento nativo, o indígena Ofaié que aqui sempre viveu, por exemplo, a historiografia produzida não primou por qualquer sentimento ontológico de respeito em relação a esse “outro”, na ocupação desses espaços de campos e cerrados. Se, antes do “descobrimento”, somente havia o “não-homem”, o “selvagem”, a presença dos autóctones habitantes da margem direita do rio Paraná, por conseguinte, só passou a ser percebida após a chegada dos chamados “desbravadores”.

 

No entender da história, portanto, antes da chegada do colonizador havia aqui apenas um “vazio de índios”. História que jamais deu espaço para os feitos dos homens de cor, ao homem branco coube a tarefa de dar “sentido” às coisas que aqui “descobriu” e para si tomou posse. A limpeza étnica, sem dúvida, provocada pelos massacres e morticínios praticados pelos primeiros exploradores, bugreiros e suas “dadas” (batidas), onde tribos inteiras foram dizimadas, desde o Oeste paulista até o Bolsão sul-mato-grossense, sem dúvida, foram esses gestos que facilitaram as coisas que passavam a ser contadas pelos escribas dos coronéis da república e dos políticos regionais.

 

Entende-se, assim, porque a história só reproduziu a mentalidade e o comportamento geral daquele que colonizou essas terras. Isso porque antes da “chegada” do colonizador não havia nada, somente o chamado “vazio teologal”, onde, para ser reconhecido como gente, o nativo, teve primeiro de humanizar-se. Por isso a história sempre deu tanta ênfase a “chegada” desses exploradores e sua catequese aplicada e disposta a ensinar o uso dos “bons costumes” da nova cultura que aos poucos foi se estabelecendo na região (1). Foram eles, os historiadores, que trouxeram as luzes do conhecimento e a escrita para esses campos desnudos e incultos, onde tudo ainda estava para ser construído.

 

Ainda que possam ser chamados de “fundadores” os “pioneiros” das grandes famílias e o poder econômico que exerceram sobre a política local, e que podem ser considerados os maiores responsáveis pela formação das bases administrativas de grande parte dos municípios brasileiros, a história não pode olvidar que, sobre os eventos praticados por esses homens ilustres e suas patentes, sempre há de pairar sobre eles um olhar de história social desvelador desses feitos nem sempre tão brilhantes como descritos.

 

Contudo, em toda a extensão urbana e rural de uma comunidade que emerge, sob a influência dos laços do poder econômico e político que a circunscreve, sempre existe aquela história que não pode ser contada por quem esteja distante da realidade e dos acontecimentos –a história presenciada e protagonizada pelas pessoas comuns. Isso porque a história é sempre entrelaçada no tempo e no espaço por heróis presentes e homens comuns, anônimos, ausentes de suas páginas. 

 

Nesse sentido, a história do município de Brasilândia passa, necessariamente, por três momentos. É a história de seus antepassados mais longínquos, é a historia de seus fundadores e é também a história de seus governantes. Cenários que ora se aproximam, ora se distanciam, na ânsia de tudo registrar e informar, desde ontem até os dias de hoje.

 

Neste livro apresentamos uma tentativa de síntese, ainda que imperfeita e incompleta, da história desse município. Não é uma história pronta e acabada, e tão-pouco pode ser entendida como a História Oficial desta terra. Tem, entretanto, o objetivo modesto de reparar a lacuna existente, sobretudo nas escolas, acerca das origens do município de Brasilândia. Sem ser demasiadamente profundo e acadêmico, porém, com relativa fundamentação histórica e com indicação bibliográfica complementar sobre os fatos narrados, a obra carrega em si, também, um outro mérito e propósito.

 

           Se por um lado quer manifestar respeito ao testemunho dos antigos moradores e seu testemunho oral, por outro quer oferecer-lhe a oportunidade de também escrever ou re-escrever, de próprio punho, novas páginas da história regional. Mais que isso: presta uma homenagem e oportuniza a homens e mulheres comuns, de inscreverem suas próprias histórias, infra-histórias privadas, em contextos mais amplos. Quer mostrar que também eles foram protagonistas dessa história local cujos reflexos sociais, econômicos e políticos de suas ação, ainda hoje, fazem parte da história do município: essa “vila” que viram nascer e crescer --a cidade de Brasilândia.



1 - DUTRA, Carlos Alberto dos Santos. Razão e Utopia, textos rebeldes. Andradina-SP: L.C.Editorial Gráfica, 1998, p. 143-4.



Escrito por Carlito Dutra às 22h52
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